O estilo de jogo dos times brasileiros deixa uma assinatura nos seus dados de jogo?


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Todo torcedor "sente" que os times jogam de formas diferentes: uma equipe aposta na posse e na circulação curta, enquanto outra se apoia na bola longa e no jogo aéreo, e uma terceira foca na velocidade das transições. Mas essa sensação é real — recuperável a partir dos dados de uma partida — ou é só uma narrativa construída depois do fato?

Essa foi a pergunta que guiou o primeiro recorte da nossa pesquisa sobre identidade tática no Brasileirão 2026: dá para dizer de qual time se trata olhando só para os números de uma partida — sem placar, escudos ou jogadores em campo — unicamente pela forma como ele jogou?

Os dados

Usamos dados de eventos de 260 partidas das rodadas 1 a 26 do Brasileirão 2026 — quase 70% da temporada. Cada partida gera duas observações, uma por equipe, totalizando 520 observações "equipe-partida" para os 20 clubes da Série A. Cada evento (passe, finalização, duelo, falta etc.) traz o tipo da ação, o resultado, a equipe, o jogador, o instante da partida e, quando disponíveis, as coordenadas de início e fim em campo.

As variáveis: como resumir "estilo" em números

Selecionamos 18 variáveis que descrevem como uma equipe executa suas ações, não quanto ela executa — priorizando proporções e medidas espaciais em vez de contagens brutas, para não confundir estilo com volume de jogo. Exemplos: acurácia de passe, taxa de passes para frente, progressão forte, comprimento médio do passe, taxa de cruzamentos, entradas no terço final e na área, circulação central, dispersão lateral dos passes e participação em duelos aéreos.

Cada atuação de cada time em cada partida vira, assim, um vetor de 18 números — uma impressão digital daquele jogo.

O método: reconhecendo um time só pelo seu estilo

Padronizamos as 18 variáveis (para ficarem na mesma escala) e definimos a identidade de cada clube como o centroide — a média — de todas as suas assinaturas de partida. A distância entre dois estilos é a distância euclidiana entre esses centroides.

O teste central é direto: para cada atuação, nós a retiramos do conjunto, recalculamos os centroides sem ela e perguntamos "de qual centroide essa atuação anônima está mais próxima?". Acerto é quando o centroide mais próximo é o do próprio time. Repetimos isso para as 520 observações (leave-one-match-out) e checamos também se o time certo aparece entre os três centroides mais próximos (Top-3).

Para confirmar que o acerto acima do acaso não é coincidência, embaralhamos os rótulos dos times 2.000 vezes e repetimos o processo, gerando uma distribuição de referência do que aconteceria sem identidade nenhuma a reconhecer.

Vale um registro antes dos resultados: esta é uma ideia direta de como reconhecer times pelo jeito de jogar, e não a proposta de um método definitivo. Uma distância a centroides, um recorte de 26 das 38 rodadas e um conjunto enxuto de variáveis são escolhas que privilegiam a clareza da explicação sobre a sofisticação técnica. O objetivo aqui é exploratório e didático: mostrar que a pergunta pode ser investigada com dados e abrir caminho para versões mais elaboradas da análise futuramente — não encerrar o assunto.

O resultado: existe, sim, uma assinatura

O método acerta o time correto em 21,15% das 520 atuações — contra uma referência aleatória de 5% (1 em 20 times), cerca de 4,2 vezes o esperado pelo acaso. Considerando os três times mais prováveis (Top-3), o acerto sobe para 43,46%.

Figura 1: Projeção em duas dimensões (PCA) das 520 assinaturas de estilo; os marcadores maiores são os centroides de cada equipe (as duas componentes somam 51% da variância; a validação usa as 18 variáveis originais).

O teste de permutação reforça o resultado: nas 2.000 simulações com rótulos embaralhados, a acurácia média foi de 5,21%, e nenhuma sequer chegou perto dos 21,15% observados (máximo de 8,85%). Em um cenário sem identidade nenhuma a reconhecer, um resultado como o observado seria raríssimo (p = 0,0005, o menor valor possível com 2.000 permutações).

Isso responde à pergunta do título: sim, o estilo de jogo deixa uma assinatura recuperável nos dados. A identidade de uma equipe não é só impressão subjetiva do torcedor ou do analista — é um padrão estatisticamente detectável.

Mas a acurácia agregada esconde uma diferença enorme entre clubes. Alguns times têm um estilo muito mais "assinado" que outros — os cinco mais e os cinco menos reconhecíveis da liga neste recorte estão na Tabela 1:

Equipe Top-1 Top-3 Rank médio
Fluminense 64,29% 82,14% 3,04
Vasco da Gama 48,00% 60,00% 4,48
Grêmio 42,31% 57,69% 4,54
Flamengo 38,46% 76,92% 3,27
São Paulo 34,62% 53,85% 6,46
Botafogo RJ 8,00% 36,00% 6,80
Cruzeiro 7,69% 19,23% 6,50
Vitória 7,41% 37,04% 6,59
Palmeiras 3,70% 22,22% 7,59
Corinthians 0,00% 19,23% 6,54

Tabela 1: Equipes com maior e menor reconhecibilidade.

O Fluminense se destaca como o time mais reconhecível da liga: quase dois terços de suas atuações são identificadas corretamente apenas pelos números do jogo. No outro extremo, o Corinthians não foi identificado corretamente em nenhuma das 26 atuações analisadas — não por jogar mal, mas porque seu padrão se sobrepõe ao de outros clubes no "espaço de estilos" da liga.

Figura 2: Reconhecibilidade Top-1 versus pontos conquistados (Spearman ρ = 0,089; p = 0,710) — sem padrão aparente: Vasco da Gama e Fluminense aparecem os dois entre os mais reconhecíveis, apesar de campanhas bem diferentes.

Conclusão: reconhecível não é sinônimo de melhor

Um ponto merece destaque antes de qualquer interpretação: reconhecibilidade de estilo não mostrou relação com a posição na tabela. O Palmeiras, vice-líder no recorte, é o segundo pior colocado em reconhecibilidade — à frente apenas do Corinthians. Já o Vasco da Gama, com campanha mais modesta, está entre os mais reconhecíveis. Ter identidade clara não é o mesmo que jogar bem tecnicamente ou somar pontos: são propriedades distintas.

Investigamos o que explica essa variação entre clubes e encontramos três fatores associados: (i) a distintividade do estilo — o quanto o centroide do time se afasta do estilo médio da liga (ρ = 0,674); (ii) o isolamento — a distância até o estilo do concorrente mais parecido (ρ = 0,635); e, em grau um pouco menor, (iii) a estabilidade interna — o quanto o time repete seu padrão de partida para partida (ρ = 0,506).

Em outras palavras: um time é reconhecível principalmente porque joga diferente dos demais — e, secundariamente, porque joga sempre do mesmo jeito. O Fluminense ilustra isso bem: seu centroide está no extremo do espaço de estilos da liga, formando o par mais distante do campeonato (Fluminense–Red Bull Bragantino), o que ajuda a explicar por que é tão facilmente reconhecido.




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